Nanquim: Capital verde da China

Jardins verticais, canais, histórias e lendas cercam a “capital do sul”

PALAVRAS Santiago Villa
Outubro 2017
COMPARTILHAR

Foto: Grace Wang

Diz a lenda que, depois de uma primeira série de fracassos para erguer a porta sul da muralha da capital, o imperador Hongwu teve de acalmar um espírito da água de mil anos de idade, enterrando um tesouro no lugar em que a porta seria erguida. O imperador exigiu então que todos os fabricantes de tijolos inscrevessem seus nomes em cada peça fornecida para a construção. Assim, se viesse abaixo novamente, a responsabilidade cairia sobre ombros mais mundanos. Muitos desses nomes ainda podem ser vistos na Porta da China, construída entre 1360 e 1368, a porta murada com a estrutura mais complexa do mundo.

Hoje parece um jardim vertical entre as pedras. Suas trepadeiras e flores que aparecem entre os tijolos cinzentos são uma imagem vívida da mistura de vegetação e história que caracteriza a cidade. Um dos slogans de Nanquim é: “a cidade atrai o verde, o verde atrai civilização”. Não é um exagero. A flora é tão exuberante que são comuns edifícios com trepadeiras, e quase todas as avenidas do centro são protegidas pela sombra amiga dos curvilíneos wutong, a árvore mais típica da cidade.

Foi com esse espírito verde que Nanquim construiu os primeiros jardins verticais da Ásia. O projeto, concebido pelo arquiteto italiano Stefano Boeri, que criou edifícios semelhantes em Milão e Lausanne, começou a ser executado neste ano e será inaugurado em 2018. É composto por duas torres, uma de 200m, com escritórios e uma escola de arquitetura verde, e outra, de 108m, com um hotel Hyatt, lojas e restaurantes. Nas varandas desses jardins suspensos de Nanquim, serão plantadas 1.100 árvores com 23 espécies nativas e 2.500 arbustos.

O resultado de um único projeto verde é mais estético do que ambiental; as torres neutralizam o efeito das emissões anuais de carbono de cinco carros, no máximo. Mas, em Pukou, o bairro onde as torres verdes estão sendo construídas, há outros projetos em andamento que combinam arquitetura, urbanismo e ecologia. O Nanjing Green Lighthouse, por exemplo, construído pela empresa dinamarquesa COWI, é um edifício com consumo mínimo de carbono que aspira receber a certificação de ouro da Liderança em Design de Energia e Meio Ambiente (LEED).

“Sendo uma cidade com história e cultura ricas, Nanquim também está desenvolvendo a proteção ambiental de acordo com padrões nacionais”, diz Wu Yunli, codiretora da Green Stone, uma das principais ONGs ambientais de Nanquim. Graças a essa iniciativa, conseguiu interromper projetos de construção em áreas protegidas e ajudou a punir, reformar ou fechar centenas de empresas durante os últimos dois anos. “A construção doméstica deve resolver o problema da poluição do ar de forma sustentável, formulada dentro de uma solução global”.

Esse é o tipo de abordagem que o mundo reconheceu na reunião COP21 de Paris, em 2015, quando Nanquim recebeu o prêmio C40 Cities Award por suas inovações na área de transporte e pela promoção do uso de veículos que usam novas formas de energia. Todos os ônibus do sistema de transporte público, por exemplo, são elétricos.

A cidade da água

Localizada a apenas uma hora e meia de trem rápido de Xangai e quatro de Pequim, Nanquim, com oito milhões de habitantes, é uma cidade de médio porte para os padrões chineses. Está entre dois extremos: uma metrópole que nunca dorme e uma cidade acolhedora.

Nanquim se aninha em torno do majestoso Rio Yangtzé, apelidado de “Dragão” pelos antigos poetas, e nas encostas da imponente Montanha Púrpura que, de manhã e à noite, se envolve numa névoa da cor que lhe dá o nome. Visitar Nanquim é se mover entre as camadas superpostas da história chinesa.

Na Montanha Púrpura, estão enterrados os primeiros imperadores da dinastia Ming (1368-1644), período contemporâneo ao Renascimento europeu e semelhante a este pelo auge da literatura e da arte. O mais extravagante dos túmulos é precisamente o do imperador Hongwu, fundador da dinastia, e seu monumento foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Por ser cemitério de imperadores, a montanha também foi escolhida para abrigar o mausoléu de Sun Yat Sen (1866-1925), o pai da nação chinesa, que liderou os esforços para criar o primeiro governo republicano, em 1912, e é o único grande personagem da China moderna admirado tanto por comunistas quanto por republicanos. Sua casa, o Palácio Presidencial de Nanquim, também foi a primeira sede do governo da China depois do fim do regime imperial. Seus jardins são tão belos que um poeta escreveu sobre eles: “Aqui os pássaros se esquecem de voar”.

A palavra equivalente a “paisagem”, shanshui, significa literalmente “montanha-água”. Este conjunto natural na China é tão culturalmente representativo em termos de harmonia e beleza que deu nome a toda uma escola de poesia clássica. Ao pé da Montanha Púrpura, às margens do Lago Xuanwu e sob uma das seções mais bem preservadas da muralha, um caminho para bicicletas e pedestres atravessa o antigo jardim imperial. Hoje, é um parque público batizado de Xuanwu, o dragão negro que, segundo a lenda, habita o lago.

A água doce é a alma da cidade, e dela parte o braço sudoeste do Grande Canal da China que se estende por mais de 1.800 km até a cidade de Pequim, “a capital do norte”. O Grande Canal significa para a comunicação na China o que a Grande Muralha é para a defesa do país. Liga o norte ao sul por vias navegáveis, que começaram a ser construídas no século VI a. C. e, em 2014, foi declarado Patrimônio da Humanidade.

“Este canal que estamos percorrendo foi muito importante na história da China, porque antigamente o mar era assediado por piratas”, comenta Yuan Xinyue, guia dos barcos que todos os dias navegam pelos canais do Rio Qinhuai. É possível pegar um na cidade antiga, ladeado por jardins, salgueiros, restaurantes, bares e ciclovias. “Se não fosse o Grande Canal, teria sido muito difícil levar o arroz produzido no sul para as cidades do norte, e o império teria entrado em colapso”, acrescenta. 

Barcos vermelhos e dourados parecidos com gôndolas fazem viagens diárias por suas águas. O ponto de partida, a vibrante rua de pedestres do Templo de Confúcio, é o lugar ideal para comprar souvenirs e provar pratos locais, como caranguejos de rio e pato salgado.

Se a noite cair e você tiver uma bicicleta à mão quando o tráfego diminuir, um passeio noturno por Nanquim é uma forma saudável, verde e, acima de tudo, segura, de terminar o dia na “capital do sul”.

A American Airlines voa para Xangai e Pequim. O trem bala leva a Nanquim.

Compartilhar

Mais Destinos

Bem-estar no deserto

Coreia Do Sul: A Revolução Verde

Na Boca do Inferno

Descobrindo a nova face do Panamá